O medo da dor ainda é um dos principais motivos que levam pacientes a adiar a cirurgia de hemorroida — muitas vezes por anos. É muito comum ouvir no consultório histórias de pessoas que convivem com sintomas há bastante tempo justamente por receio do pós-operatório. Não raro, esse medo vem da experiência de algum familiar que passou por uma cirurgia no passado e teve uma recuperação difícil. Mas será que essa preocupação ainda faz sentido hoje?
Como era a cirurgia antigamente?
Durante muito tempo, os cirurgiões usaram a hemorroidectomia tradicional como técnica padrão para tratar hemorroidas. Ela pode seguir a forma aberta (técnica de Milligan-Morgan) ou fechada (técnica de Ferguson).

Nessa cirurgia excisional, o cirurgião remove o tecido hemorroidário. Depois da retirada, a ferida pode cicatrizar aberta ou receber pontos, conforme a técnica escolhida.
Esse procedimento é bastante eficaz, especialmente para casos mais avançados (hemorróida grau IV). Porém, muitos pacientes associam essa técnica a dor mais intensa e recuperação mais prolongada. Essa experiência marcou gerações e ainda influencia a forma como a cirurgia é vista atualmente.
O que mudou nos últimos anos?
Nos últimos anos, surgiram alternativas menos invasivas, com o objetivo de reduzir a dor e acelerar a recuperação. Entre elas, destacam-se a desarterialização hemorroidária transanal (THD) e a hemorroidopexia com grampeador (PPH).


De forma simplificada, essas técnicas atuam reposicionando o tecido hemorroidário para dentro do canal anal e reduzindo o fluxo de sangue para as hemorroidas, em vez de removê-las completamente com cortes. Na prática, isso costuma resultar em menor agressão à região e, consequentemente, menos dor no pós-operatório.
A escolha da técnica, no entanto, não é igual para todos os casos. Ela depende do grau da doença, dos sintomas e das características de cada paciente.
Por que algumas cirurgias doem menos?
Um ponto importante para entender a dor após a cirurgia é que a região anal não tem a mesma sensibilidade em toda a sua extensão.
A parte mais interna do canal anal é menos sensível à dor, enquanto a parte externa é muito mais sensível, semelhante à pele.
Na prática, procedimentos realizados mais internamente, como o PPH e o THD, tendem a ser menos dolorosos do que aqueles que envolvem a parte externa, como a hemorroidectomia tradicional.
Quando a cirurgia é indicada?
A cirurgia costuma ser indicada principalmente quando há sangramento anal frequente ou prolapso das hemorroidas (quando elas se exteriorizam durante o esforço ou evacuação), especialmente quando esses sintomas passam a impactar a qualidade de vida. Outros sintomas incluem o prurido anal (coceira), dificuldade com a higiene e questões estéticas.
Nesses casos, adiar o tratamento por medo da dor pode acabar prolongando o desconforto desnecessariamente.
Nem todos os casos de hemorroida precisam de cirurgia, especialmente nos estágios iniciais — tema que abordo em outro artigo.
Então, existe cirurgia de hemorroida sem dor?
Não existe cirurgia completamente sem dor.
Por outro lado, também não é correto pensar que a cirurgia de hemorroida continua sendo tão dolorosa quanto no passado.
Hoje, na maioria dos casos, o que observamos é um desconforto leve a moderado nos primeiros dias após a cirurgia, principalmente ao evacuar, com melhora progressiva ao longo da primeira semana. Com o uso adequado de medicações, cuidados locais e orientação alimentar, a recuperação costuma ser bem mais tranquila do que muitos imaginam. Os cuidados após a cirurgia de hemorroida, incluindo alimentação, higiene local e controle da dor, são detalhados em outro artigo.
É importante lembrar que a percepção de dor varia de pessoa para pessoa. Por isso, a mesma técnica pode gerar experiências diferentes a depender do paciente.
Conclusão
A cirurgia de hemorroida evoluiu muito nas últimas décadas. Hoje, além da hemorroidectomia tradicional, dispomos de técnicas menos invasivas que permitem uma recuperação mais rápida.
Não existe cirurgia completamente sem dor, mas a experiência atual é muito diferente do que se via no passado, com dor mais controlada e recuperação mais previsível.
Se você tem receio da cirurgia ou vem convivendo com sintomas há muito tempo, vale a pena uma avaliação especializada para entender as opções disponíveis e definir o melhor tratamento para o seu caso.
Perguntas frequentes
Não. Hoje, na maioria dos casos, o desconforto é leve a moderado nos primeiros dias e melhora progressivamente. A dor costuma ser mais controlada do que no passado.
Não existe cirurgia completamente sem dor, mas atualmente é possível realizar o tratamento com dor bem controlada e recuperação mais confortável.
A maior parte dos pacientes apresenta melhora significativa na primeira semana. O retorno às atividades acontece de forma gradual, variando de acordo com o tipo de cirurgia e o perfil de cada pessoa.
Não. Existem diferentes técnicas, e a escolha depende do tipo e grau da hemorroida, além das características do paciente. Cada abordagem tem vantagens e limitações.
Quando há sangramento frequente, saída das hemorroidas durante evacuação ou sintomas persistentes que impactam a qualidade de vida, especialmente após falha do tratamento clínico.



