Constipação intestinal: quando investigar e quando a cirurgia pode ser necessária

Pessoa caminhando em um parque, representando rotina e bem-estar no contexto da constipação intestinal.

Introdução

A constipação intestinal, também conhecida como prisão de ventre ou intestino preso, é um dos problemas gastrointestinais mais frequentes.

Embora muitas pessoas apresentem melhora com mudanças na alimentação, aumento da ingestão de água e uso de laxantes, alguns pacientes continuam com sintomas importantes por muitos anos.

Nesses casos, é fundamental investigar a causa da constipação. Hoje sabemos que diferentes doenças podem provocar intestino preso e que cada uma delas exige um tratamento específico.

Neste artigo explico quando a constipação merece investigação, quais exames podem ser necessários e em quais situações a cirurgia pode ser indicada.

O que é constipação intestinal?

A constipação não significa apenas evacuar poucas vezes por semana.

Ela pode incluir sintomas como:

  • menos de três evacuações por semana
  • fezes endurecidas
  • necessidade de fazer muito esforço para evacuar
  • sensação de evacuação incompleta
  • sensação de bloqueio na saída das fezes
  • necessidade de usar os dedos ou outras manobras para conseguir evacuar.

Quando esses sintomas persistem por vários meses, é importante procurar avaliação especializada.

Quando investigar?

Nem toda prisão de ventre necessita de exames.

Entretanto, alguns sinais indicam a necessidade de investigação:

  • sintomas persistentes apesar de dieta e laxantes
  • necessidade frequente de laxativos
  • sangramento nas fezes
  • perda de peso
  • anemia
  • início recente da constipação após os 50 anos
  • história familiar de câncer colorretal.

Além disso, algumas doenças e medicamentos podem causar prisão de ventre, como hipotireoidismo, diabetes, doenças neurológicas, uso de opioides e alguns antidepressivos, além de tumores do intestino. Essas causas precisam ser investigadas e tratadas antes de concluir que a constipação é decorrente de um problema do próprio funcionamento do intestino ou da evacuação.

Existem diferentes tipos de constipação?

Sim.

A constipação crônica primária é dividida em três grandes grupos, que podem coexistir em um mesmo paciente.

Constipação com trânsito normal

É a forma mais comum.

Nesses pacientes, o intestino funciona normalmente, mas a evacuação é percebida como difícil ou insatisfatória.

Esse quadro costuma estar associado à alimentação pobre em fibras, baixa ingestão de líquidos, sedentarismo ou à síndrome do intestino irritável com constipação (SII-C), na qual a dor abdominal melhora após a evacuação.

Na maioria dos casos, responde bem ao tratamento clínico com mudanças no estilo de vida, fibras e laxantes.

Constipação por trânsito lento (inércia colônica)

Na inércia colônica, o intestino grosso perde parte da sua capacidade de impulsionar as fezes.

Como consequência, elas permanecem por muitos dias no cólon, tornando-se cada vez mais ressecadas.

Os pacientes costumam apresentar:

  • evacuações muito infrequentes
  • pouca vontade de evacuar
  • fezes muito endurecidas (tipos 1 e 2 da Escala de Bristol)
  • resposta limitada aos laxantes.

O diagnóstico é confirmado por exames que avaliam o tempo de trânsito intestinal, como o estudo com marcadores radiopacos (tempo de trânsito colônico) ou a cintilografia do trânsito colônico.

Distúrbios da evacuação (obstrução de saída)

Nesse grupo, o intestino consegue transportar as fezes normalmente, mas existe dificuldade para eliminá-las.

A causa pode ser funcional ou anatômica.

Dissinergia do assoalho pélvico (anismo)

Durante a evacuação normal, os músculos do assoalho pélvico devem relaxar.

Na dissinergia, ocorre exatamente o contrário: esses músculos permanecem contraídos ou relaxam de forma inadequada, dificultando a saída das fezes.

Os sintomas mais comuns incluem:

  • esforço excessivo
  • sensação de bloqueio
  • evacuação incompleta
  • necessidade de manobras digitais.

O diagnóstico é realizado por meio da manometria anorretal, do teste de expulsão do balão e, em alguns casos, da videodefecografia.

O tratamento de primeira linha é a fisioterapia especializada com biofeedback, que costuma apresentar excelentes resultados. Nesses pacientes, laxantes e aumento da ingestão de fibras isoladamente costumam ter pouca eficácia.

Alterações anatômicas

Alguns pacientes apresentam alterações estruturais que dificultam a evacuação, como:

  • retocele
  • intussuscepção retal (prolapso interno)
  • prolapso retal.

Essas alterações podem ser identificadas pela defecografia ou pela ressonância magnética dinâmica da pelve.

Quais exames podem ser necessários?

A investigação depende dos sintomas apresentados.

Os exames mais utilizados incluem:

  • colonoscopia
  • estudo do tempo de trânsito colônico
  • manometria anorretal
  • teste de expulsão do balão
  • defecografia
  • ressonância magnética dinâmica da pelve.

Esses exames permitem identificar o mecanismo responsável pela constipação e orientar o tratamento mais adequado.

Todo paciente com constipação precisa de cirurgia?

Não.

Na realidade, a grande maioria dos pacientes melhora com tratamento clínico, que pode incluir mudanças alimentares, atividade física, hidratação, laxantes e fisioterapia do assoalho pélvico.

Mesmo em centros especializados, onde são avaliados pacientes com constipação grave e refratária, apenas cerca de 5% apresentam indicação de tratamento cirúrgico.

Por isso, uma investigação completa é fundamental antes de considerar qualquer cirurgia.

Quando a cirurgia pode ser indicada?

A cirurgia é reservada para pacientes cuidadosamente selecionados, após falha do tratamento clínico e confirmação da causa da constipação.

Inércia colônica

Pacientes com constipação grave por trânsito lento, refratária ao tratamento clínico e sem outros distúrbios associados podem ser candidatos à colectomia total com anastomose ileorretal.

Na inércia colônica, o problema está no funcionamento do cólon, que perdeu grande parte da sua capacidade de impulsionar as fezes. Nessa cirurgia, praticamente todo o intestino grosso é removido, preservando-se o reto, e o intestino delgado é conectado diretamente ao reto (anastomose ileorretal). Dessa forma, as fezes deixam de permanecer por vários dias no cólon e passam a seguir um trajeto mais curto até a evacuação.

Quando indicada para o paciente correto, a cirurgia pode proporcionar melhora importante da frequência das evacuações, reduzir a dependência de laxantes e melhorar significativamente a qualidade de vida. Antes da cirurgia, é fundamental confirmar o diagnóstico e excluir outras causas de constipação, garantindo que o procedimento seja indicado para os pacientes com maior chance de benefício.

Prolapso retal e alterações anatômicas

Quando a constipação está relacionada a alterações anatômicas, como prolapso retal ou intussuscepção, a cirurgia pode corrigir o defeito estrutural e melhorar os sintomas.

Em pacientes selecionados, a retopexia ventral representa uma das principais opções de tratamento.

Nos casos de retocele, a cirurgia é reservada para pacientes cuidadosamente selecionados após investigação funcional completa e falha do tratamento conservador.

Dissinergia do assoalho pélvico

A cirurgia raramente está indicada.

Na grande maioria dos pacientes, o tratamento consiste em fisioterapia com biofeedback, que apresenta resultados superiores às opções cirúrgicas.

A cirurgia cura a constipação?

Depende da causa.

Quando existe uma indicação correta, a cirurgia pode proporcionar melhora significativa da qualidade de vida.

Entretanto, ela não é indicada para todos os tipos de constipação e nunca deve ser realizada sem uma investigação detalhada.

Conclusão

A constipação intestinal não é uma doença única.

Existem diferentes mecanismos responsáveis pelo intestino preso, e cada um deles exige uma abordagem específica.

Embora a maioria dos pacientes responda ao tratamento clínico, alguns apresentam doenças como inércia colônica, dissinergia do assoalho pélvico ou alterações anatômicas que necessitam de investigação especializada.

O diagnóstico correto é o primeiro passo para escolher o tratamento mais adequado e evitar cirurgias desnecessárias.

Perguntas frequentes

Evacuar apenas uma vez por semana é normal?

Não. Evacuações tão infrequentes merecem investigação, principalmente quando associadas a esforço, dor ou necessidade frequente de laxantes.

Como saber se tenho inércia colônica?

O diagnóstico é feito por exames que avaliam o tempo de trânsito intestinal, como o estudo com marcadores radiopacos ou a cintilografia do trânsito colônico.

O que é anismo?

Também chamado de dissinergia do assoalho pélvico, é um distúrbio em que os músculos responsáveis pela evacuação não relaxam adequadamente, dificultando a saída das fezes.

O biofeedback realmente funciona?

Sim. O biofeedback é considerado o tratamento de primeira linha para pacientes com dissinergia do assoalho pélvico e apresenta excelentes resultados na maioria dos casos.

Toda constipação pode ser tratada com cirurgia?

Não. A cirurgia é indicada apenas para uma pequena parcela dos pacientes, geralmente após investigação completa e falha do tratamento clínico.

A cirurgia para inércia colônica é segura?

Sim. Quando indicada para o paciente correto, a cirurgia é um procedimento seguro e pode proporcionar melhora significativa da constipação e da qualidade de vida. Como toda cirurgia de grande porte, apresenta riscos, que são cuidadosamente avaliados e discutidos durante o planejamento cirúrgico.

Vou ficar sem absorver os alimentos se retirar o intestino grosso?

Não. A maior parte da absorção dos nutrientes acontece no intestino delgado, que é preservado nessa cirurgia. O intestino grosso tem como principal função absorver água e armazenar as fezes. Por isso, é comum que as evacuações fiquem mais frequentes nos primeiros meses após a cirurgia, com adaptação progressiva.

Este conteúdo foi elaborado com base em evidências científicas atuais e na experiência clínica do autor. Se você apresenta sintomas semelhantes aos descritos neste texto ou tem dúvidas sobre o melhor tratamento para o seu caso, uma avaliação especializada pode ajudar a definir a conduta mais adequada.

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