Fissura anal que não cicatriza: o que fazer?

Consulta com coloproctologista sobre fissura anal persistente, com médico visto de costas.

A fissura anal é uma pequena ferida na pele do canal anal que costuma provocar dor intensa durante e após a evacuação, muitas vezes acompanhada de sangramento.

Na maioria dos casos, ela cicatriza com medidas simples, como controle da constipação, aumento da ingestão de fibras, banhos de assento e pomadas específicas.

No entanto, algumas fissuras persistem por semanas ou meses, causando dor recorrente e grande impacto na qualidade de vida. Nesses casos, é importante entender por que a fissura não cicatriza e quais tratamentos podem interromper esse ciclo.

Neste artigo explico quando uma fissura é considerada crônica, quais fatores dificultam sua cicatrização e quando a cirurgia pode ser a melhor opção.

O que é uma fissura anal?

A fissura anal é um pequeno corte na pele que reveste o canal anal.

Geralmente surge após a passagem de fezes endurecidas ou evacuações com muito esforço. Também pode ocorrer após episódios de diarreia intensa ou outros traumas locais.

O sintoma mais característico é uma dor intensa durante a evacuação, frequentemente descrita como um corte ou uma queimadura, que pode persistir por vários minutos ou até horas após evacuar. Sangramento em pequena quantidade, normalmente observado no papel higiênico, também é comum.

Ilustração anatômica da fissura anal no canal anal, com identificação de reto e ânus.
Figura 1. Anatomia do canal anal mostrando a localização de uma fissura anal.

Por que algumas fissuras não cicatrizam?

A principal razão é a formação de um ciclo que dificulta a cicatrização.

A dor provocada pela fissura leva à contração involuntária do esfíncter anal interno, um músculo responsável por manter o canal anal fechado em repouso.

Esse espasmo reduz o fluxo sanguíneo da região, dificultando a cicatrização da ferida. Como a fissura permanece aberta, a próxima evacuação provoca nova dor, reiniciando o ciclo.

Em resumo: Dor → espasmo do esfíncter → diminuição do fluxo sanguíneo → dificuldade de cicatrização → fissura persistente

É justamente esse mecanismo que explica por que algumas fissuras persistem apesar do uso de pomadas.

Infográfico do ciclo da fissura anal crônica: trauma, dor, espasmo do esfíncter, diminuição da perfusão e dificuldade de cicatrização.
Figura 2. Ciclo responsável pela persistência da fissura anal crônica.

Quando uma fissura é considerada crônica?

Em geral, uma fissura é considerada crônica quando permanece sem cicatrizar após 8 semanas de tratamento adequado.

Além da duração dos sintomas, ela costuma apresentar alterações características durante o exame físico, como:

  • plicoma sentinela (uma pequena dobra de pele na borda da fissura);
  • papila anal hipertrófica;
  • exposição das fibras do esfíncter interno no fundo da fissura.

Esses sinais indicam que a fissura dificilmente cicatrizará completamente apenas com medidas conservadoras.

Toda fissura anal é igual?

Não.

A maioria das fissuras ocorre na linha média posterior do canal anal e está relacionada ao trauma causado pela evacuação.

Entretanto, fissuras localizadas na lateral do canal anal, múltiplas ou recorrentes podem estar associadas a outras doenças e merecem investigação adicional.

Quais doenças podem causar fissuras que não cicatrizam?

Embora a maioria das fissuras seja causada apenas pelo trauma local e pelo espasmo do esfíncter, algumas doenças podem provocar lesões semelhantes ou dificultar sua cicatrização.

Entre elas estão:

  • doença de Crohn;
  • infecções sexualmente transmissíveis (como sífilis ou herpes);
  • tuberculose;
  • infecção pelo HIV;
  • câncer do canal anal;

Por isso, fissuras com aspecto atípico ou que não respondem ao tratamento habitual devem ser avaliadas por um coloproctologista.

Como é feito o tratamento?

O tratamento depende do tempo de evolução da fissura e da intensidade dos sintomas.

Mudanças no hábito intestinal

O primeiro objetivo é evitar novas lesões durante a evacuação.

Isso inclui:

  • aumento da ingestão de fibras;
  • boa hidratação;
  • evitar esforço evacuatório;
  • tratamento da constipação quando presente.
  • evitar papel higiênico, preferir ducha higiênica ou bidê

Essas medidas são fundamentais em todas as fases do tratamento.

Pomadas

As pomadas utilizadas no tratamento da fissura anal têm como objetivo relaxar temporariamente o esfíncter anal interno, reduzindo o espasmo muscular e aumentando o fluxo sanguíneo local.

Com isso, criam condições mais favoráveis para a cicatrização da fissura.

Toxina botulínica (Botox®)

Em alguns pacientes, pode ser indicada a aplicação de toxina botulínica no esfíncter anal interno.

O Botox® promove um relaxamento temporário da musculatura, permitindo a cicatrização da fissura sem necessidade de uma cirurgia.

Pode ser uma boa opção para pacientes selecionados, especialmente aqueles com maior risco de incontinência fecal.

Cirurgia

Quando a fissura permanece sem cicatrizar apesar do tratamento clínico, a cirurgia costuma oferecer as maiores taxas de sucesso.

O procedimento mais realizado é a esfincterotomia lateral interna.

Nessa cirurgia, é realizado um pequeno corte controlado em parte do esfíncter anal interno, reduzindo o espasmo muscular responsável pela dor e pela dificuldade de cicatrização. Com o relaxamento do músculo, o fluxo sanguíneo local aumenta e a fissura consegue cicatrizar.

Trata-se de um procedimento de curta duração, geralmente realizado em regime ambulatorial, com elevadas taxas de cicatrização e melhora rápida da dor.

Em pacientes com maior risco de incontinência fecal — como mulheres com lesões obstétricas prévias, pacientes submetidos a cirurgias anais anteriores ou com alterações do esfíncter — podem ser indicadas técnicas alternativas, como a fissurectomia associada ao retalho de avanço, que preservam a musculatura esfincteriana.

A cirurgia pode causar incontinência?

Essa é uma das dúvidas mais frequentes dos pacientes.

Quando a cirurgia é corretamente indicada e realizada após uma avaliação cuidadosa, o risco de alterações permanentes da continência é muito baixo.

Além disso, atualmente existem técnicas que preservam o esfíncter em pacientes com maior risco de incontinência, permitindo individualizar o tratamento de acordo com as características de cada pessoa.

Quando procurar um especialista?

Você deve procurar avaliação médica se apresentar:

  • dor intensa durante a evacuação;
  • fissura que não melhora com pomadas;
  • sangramento recorrente;
  • fissuras de repetição;
  • fissuras localizadas fora da linha média;
  • suspeita de doença de Crohn ou outra doença associada.

Quanto mais precoce for o diagnóstico, maiores são as chances de evitar a cronificação da fissura.

Conclusão

A maioria das fissuras anais cicatriza com tratamento clínico.

Entretanto, quando a dor persiste por várias semanas e a fissura não apresenta sinais de cicatrização, é importante realizar uma avaliação especializada para confirmar o diagnóstico e excluir outras doenças.

Hoje existem tratamentos altamente eficazes, tanto clínicos quanto cirúrgicos, capazes de aliviar a dor, promover a cicatrização e devolver qualidade de vida à maioria dos pacientes.

Perguntas frequentes

Quanto tempo uma fissura anal demora para cicatrizar?

As fissuras agudas costumam cicatrizar em algumas semanas. Quando persistem por mais de 8 semanas, passam a ser consideradas crônicas e podem necessitar de tratamento específico.

Por que minha fissura não cicatriza?

Na maioria dos casos, devido ao espasmo persistente do esfíncter anal interno, que reduz o fluxo sanguíneo local e impede a cicatrização da ferida.

Quando a cirurgia é indicada?

Quando a fissura persiste apesar do tratamento clínico adequado ou apresenta características de fissura crônica ao exame físico.

A cirurgia dói?

A maioria dos pacientes apresenta melhora importante da dor já nos primeiros dias após a cirurgia. O desconforto da recuperação costuma ser bem menor do que a dor provocada pela própria fissura.

A cirurgia pode causar incontinência fecal?

Quando indicada corretamente e realizada por um cirurgião experiente, o risco é muito baixo. Em pacientes com maior risco de alterações da continência, existem técnicas que preservam o esfíncter anal.

A fissura pode voltar depois da cirurgia?

A recidiva é incomum. A maioria dos pacientes apresenta cicatrização definitiva da fissura após a cirurgia. Quando a fissura reaparece, é importante investigar fatores que favorecem seu surgimento, como constipação persistente, diarreia crônica, doença de Crohn ou outras doenças do canal anal. Na maioria dos casos, existem opções eficazes de tratamento.

Minha fissura pode ser câncer?

Na maioria dos casos, não. No entanto, algumas doenças, incluindo tumores do canal anal, podem se apresentar de forma semelhante a uma fissura. Lesões que não cicatrizam ou apresentam aspecto atípico devem ser avaliadas por um especialista.

Este conteúdo foi elaborado com base em evidências científicas atuais e na experiência clínica do autor. Se você apresenta sintomas semelhantes aos descritos neste texto ou tem dúvidas sobre o melhor tratamento para o seu caso, uma avaliação especializada pode ajudar a definir a conduta mais adequada.

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