Diverticulite: quando a cirurgia é indicada?

Diverticulite: quando a cirurgia é indicada?

Receber o diagnóstico de diverticulite costuma gerar muitas dúvidas.

Uma das mais frequentes é: “Vou precisar operar?”

Durante muitos anos acreditou-se que pacientes com duas ou mais crises de diverticulite deveriam ser submetidos à cirurgia após a resolução da inflamação.

Hoje sabemos que essa decisão é muito mais complexa e deve ser individualizada.

A maioria dos pacientes nunca precisará de cirurgia. Por outro lado, em alguns casos, a operação pode representar a melhor forma de prevenir novas crises, tratar complicações e recuperar qualidade de vida.

O que é a diverticulite?

A diverticulite ocorre quando pequenos divertículos (dilatações em áreas de fraqueza da parede intestinal) do intestino grosso ficam inflamados ou infectados.

Os sintomas mais comuns incluem:

  • dor abdominal, geralmente do lado esquerdo
  • febre
  • alteração do hábito intestinal
  • náuseas
  • distensão abdominal

Na maioria dos casos, o tratamento é realizado com medicações, hidratação e repouso intestinal, sem necessidade de cirurgia. Alguns casos também são tratados com antibióticos.

Diverticulose e diverticulite: ilustração de divertículos inflamados na parede do cólon.
Figura 1. Diverticulose e diverticulite. A diverticulose corresponde à presença de divertículos na parede do intestino grosso. Já a diverticulite ocorre quando um ou mais desses divertículos tornam-se inflamados ou infectados.

Posso comer sementes, castanhas ou pipoca?

Sim.

Durante muitos anos acreditou-se que alimentos como sementes, castanhas, nozes e pipoca poderiam ficar presos nos divertículos e provocar crises de diverticulite.

Hoje sabemos que isso não é verdade.

Estudos científicos não demonstraram aumento do risco de diverticulite associado ao consumo desses alimentos. Pelo contrário, uma alimentação rica em fibras costuma ser recomendada para pacientes com doença diverticular.

Durante uma crise aguda, no entanto, seu médico pode orientar temporariamente uma dieta mais leve até a melhora da inflamação.

Toda diverticulite precisa de cirurgia?

Não. A maior parte dos pacientes apresenta apenas um episódio ao longo da vida ou crises esporádicas que podem ser tratadas clinicamente. A presença de diverticulose (divertículos sem inflamação), por si só, também não é indicação cirúrgica.

Atualmente, a decisão de operar não é baseada apenas no número de crises, mas principalmente na gravidade da doença e no impacto que ela causa na vida do paciente.

Vou precisar ficar internado após uma crise de diverticulite?

Nem todos os episódios de diverticulite exigem internação hospitalar.

Pacientes com quadros leves, sem sinais de infecção importante e capazes de se alimentar adequadamente geralmente podem ser tratados em casa com acompanhamento médico.

Por outro lado, a internação pode ser necessária quando existem:

  • dor intensa
  • febre persistente
  • incapacidade de ingerir líquidos
  • vômitos
  • sinais de abscesso (coleção de pus)
  • imunossupressão
  • idade avançada ou múltiplas comorbidades

Nessas situações, pode ser necessário tratamento com antibióticos intravenosos, hidratação venosa e monitorização hospitalar.

Preciso fazer colonoscopia depois de uma crise?

Em muitos casos, sim.

Após a resolução da crise, a colonoscopia pode ser recomendada para confirmar o diagnóstico, avaliar a extensão da doença diverticular e excluir outras condições que podem causar sintomas semelhantes, como pólipos ou câncer colorretal.

A necessidade e o momento ideal do exame devem ser discutidos com o seu médico. Habitualmente espera-se pelo menos 30 dias após a crise de diverticulite para a realização desse exame.

E quando a dor nunca vai embora?

Muitas pessoas associam a diverticulite apenas às crises agudas com febre e necessidade de antibióticos.

No entanto, alguns pacientes continuam apresentando sintomas mesmo após a resolução da inflamação aguda.

Os sintomas mais comuns incluem:

  • dor recorrente no lado esquerdo do abdome
  • sensação de distensão abdominal
  • desconforto após as refeições
  • alteração do hábito intestinal
  • sensação de nunca voltar ao normal entre as crises

Esse quadro é frequentemente chamado de doença diverticular sintomática crônica (SUDD).

Embora não represente uma emergência, pode causar impacto importante na qualidade de vida e levar a múltiplas consultas, exames e tratamentos ao longo dos anos.

A cirurgia pode ajudar nos sintomas crônicos?

Em muitos pacientes, sim.

Quando existe correlação entre os sintomas e a doença diverticular, a cirurgia pode proporcionar melhora significativa da dor abdominal, redução das crises recorrentes e recuperação da qualidade de vida.

A decisão deve ser individualizada e considerar fatores como frequência dos sintomas, histórico de internações, exames de imagem e impacto da doença na rotina do paciente.

Mais importante do que contar o número de crises é entender como a doença está afetando a vida daquela pessoa.

Quando a cirurgia passa a ser considerada?

Existem algumas situações em que a cirurgia pode ser recomendada.

Crises recorrentes com impacto na qualidade de vida

Alguns pacientes desenvolvem episódios repetidos de diverticulite que levam a:

  • internações frequentes
  • múltiplos ciclos de antibióticos
  • afastamento do trabalho
  • limitação das atividades diárias
  • medo constante de novas crises
  • dor abdominal crônica

Nessas situações, a cirurgia pode reduzir significativamente o risco de novos episódios e melhorar a qualidade de vida.

Pacientes imunossuprimidos merecem atenção especial

Pacientes que utilizam corticóides, imunossupressores ou apresentam doenças que comprometem o sistema imunológico podem desenvolver formas mais graves de diverticulite.

Além disso, os sintomas podem ser menos exuberantes, atrasando o diagnóstico.

Por esse motivo, a indicação cirúrgica costuma ser discutida mais precocemente nesses pacientes, especialmente após episódios complicados da doença.

Complicações da diverticulite

Embora a maioria dos episódios evolua de forma favorável, algumas pessoas podem desenvolver formas mais graves da doença.

A inflamação pode levar à formação de abscessos (coleções de pus próximas ao intestino), ao surgimento de fístulas (comunicações anormais entre o intestino e outros órgãos, como bexiga ou vagina), ou ainda causar estenoses, que são estreitamentos do intestino decorrentes de cicatrização excessiva após crises repetidas.

Em situações mais graves, pode ocorrer perfuração intestinal, com extravasamento de conteúdo para a cavidade abdominal e desenvolvimento de peritonite, uma infecção potencialmente grave que geralmente exige cirurgia de urgência.

Essas complicações são algumas das principais situações em que o tratamento cirúrgico costuma ser recomendado.

Como é a cirurgia para diverticulite?

A cirurgia consiste na remoção do segmento do intestino acometido pela doença, geralmente o cólon sigmóide.

Após a retirada desse segmento, o intestino é reconstruído por meio de uma anastomose, ou seja, uma nova conexão entre as extremidades saudáveis do cólon e do reto.

Quando a cirurgia é realizada de forma programada (cirurgia eletiva), geralmente após a resolução da inflamação aguda, a maioria dos pacientes consegue reconstruir o trânsito intestinal no mesmo procedimento, sem necessidade de estoma (“bolsinha”).

Por esse motivo, em pacientes selecionados, não devemos esperar o aparecimento de complicações graves para discutir a cirurgia.

Em algumas situações, especialmente quando existe inflamação importante, uso de corticoides, desnutrição ou outros fatores de risco, pode ser necessária a confecção de uma ileostomia temporária de proteção. Nesses casos, o intestino é reconstruído no mesmo procedimento, mas a ileostomia reduz temporariamente a passagem de fezes pela anastomose, permitindo uma cicatrização mais segura. Na maioria dos casos, essa ileostomia pode ser revertida posteriormente após alguns meses.

Já nas cirurgias de urgência, realizadas em pacientes com perfuração intestinal, peritonite ou sepse, nem sempre é possível reconstruir o intestino com segurança. Nessas situações, pode ser necessário realizar uma cirurgia de Hartmann, em que o segmento doente é removido e é confeccionada uma colostomia temporária, sem a confecção de uma anastomose no mesmo ato cirúrgico. Dependendo das condições clínicas do paciente, essa colostomia poderá ser revertida em um segundo momento, geralmente após 6 a 12 meses.

Ilustração da cirurgia para diverticulite com remoção do cólon sigmoide e anastomose entre cólon e reto.
Figura 2. Tratamento cirúrgico da diverticulite. O segmento do cólon sigmoide acometido pela doença é removido e o trânsito intestinal é reconstruído por meio de uma anastomose entre o cólon descendente saudável e o reto.

Cirurgia laparoscópica ou robótica?

Nas últimas décadas, o tratamento cirúrgico da diverticulite evoluiu significativamente.

Sempre que possível, damos preferência às técnicas minimamente invasivas, como a cirurgia laparoscópica e a cirurgia robótica.

Essas abordagens costumam proporcionar:

  • menor dor pós-operatória
  • recuperação mais rápida
  • menor tempo de internação
  • retorno precoce às atividades

A cirurgia robótica oferece visão tridimensional ampliada e instrumentos articulados que permitem maior precisão em áreas de inflamação e fibrose, frequentemente encontradas em pacientes com diverticulite recorrente.

Vou precisar usar bolsa?

Essa é uma das dúvidas mais frequentes dos pacientes.

Nas cirurgias eletivas, a necessidade de estoma é incomum.

Quando a cirurgia é realizada em um cenário controlado, sem infecção abdominal importante e com preparo adequado do paciente, geralmente é possível realizar uma anastomose primária sem necessidade de bolsa temporária.

Por outro lado, em situações de urgência — como perfuração intestinal, peritonite ou sepse — o risco de necessidade de ileostomia ou colostomia é significativamente maior.

Mesmo nesses casos, muitas vezes o estoma pode ser revertido posteriormente.

A cirurgia cura a diverticulite?

A cirurgia reduz de forma importante o risco de novas crises ao remover o segmento do intestino mais acometido pela doença.

Embora nenhum tratamento ofereça risco zero de recorrência, a maioria dos pacientes apresenta melhora significativa dos sintomas e da qualidade de vida após o procedimento.

Conclusão

A maioria dos pacientes com diverticulite nunca precisará de cirurgia.

Por outro lado, quando surgem crises recorrentes, sintomas crônicos persistentes ou complicações como abscessos, fístulas e estenoses, a cirurgia pode representar a melhor alternativa para prevenir novos episódios e recuperar qualidade de vida.

Hoje sabemos que a decisão de operar não deve ser baseada apenas no número de crises, mas principalmente no impacto da doença sobre a vida do paciente.

Se você convive com diverticulite há anos, apresenta dor recorrente ou tem dúvidas sobre a necessidade de cirurgia, uma avaliação especializada pode ajudar a definir a melhor estratégia para o seu caso.

Perguntas frequentes

Preciso operar depois de duas crises de diverticulite?

Não necessariamente. Atualmente a decisão é individualizada e não depende apenas do número de episódios.

Toda diverticulite complicada precisa de cirurgia?

Nem sempre. Alguns abscessos podem ser tratados agudamente com medicações e drenagem percutânea. Após a resolução do quadro agudo, muitos pacientes podem se beneficiar de uma cirurgia eletiva (fora da crise) como forma de evitar uma nova crise complicada.

A cirurgia pode ajudar na dor abdominal crônica?

Sim. Em pacientes selecionados com doença diverticular sintomática crônica (SUDD), a cirurgia pode proporcionar melhora importante da dor e da qualidade de vida.

Pacientes imunossuprimidos têm maior risco?

Sim. Pacientes que utilizam corticóides, imunossupressores ou quimioterapia podem desenvolver formas mais graves da doença e frequentemente necessitam de acompanhamento mais próximo.

Vou precisar usar bolsa?

Na maioria das cirurgias eletivas, não. A necessidade de estoma temporário é mais comum em situações de urgência.

A cirurgia pode ser feita por robótica?

Sim. A cirurgia robótica é uma excelente opção para muitos pacientes e permite realizar o procedimento por pequenas incisões, com recuperação mais rápida e menor dor pós-operatória.

A cirurgia cura a diverticulite?

A cirurgia reduz significativamente o risco de novas crises ao remover o segmento mais acometido pela doença. A maioria dos pacientes apresenta melhora importante dos sintomas e da qualidade de vida após o tratamento cirúrgico.

Este conteúdo foi elaborado com base em evidências científicas atuais e na experiência clínica do autor. Se você apresenta sintomas semelhantes aos descritos neste texto ou tem dúvidas sobre o melhor tratamento para o seu caso, uma avaliação especializada pode ajudar a definir a conduta mais adequada.

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