Introdução
Perder fezes ou não conseguir chegar ao banheiro a tempo pode ser uma situação extremamente constrangedora.
Muitas pessoas acreditam que isso faz parte do envelhecimento ou que não existe tratamento. Outras deixam de viajar, praticar atividades físicas ou participar de eventos sociais por medo de acidentes.
A boa notícia é que a incontinência fecal tem tratamento.
Hoje existem diversas opções capazes de melhorar significativamente os sintomas e devolver qualidade de vida, desde mudanças na alimentação e fisioterapia até cirurgias reconstrutivas do esfíncter anal e tratamentos modernos, como a neuromodulação sacral (InterStim®).
Mais importante ainda: quanto mais cedo o problema for investigado, maiores são as chances de um tratamento eficaz.
Neste artigo explico o que é a incontinência fecal, suas principais causas, como é feito o diagnóstico e quais são os tratamentos atualmente disponíveis.
O que é incontinência fecal?
A incontinência fecal é a perda involuntária de fezes ou a incapacidade de controlar adequadamente a evacuação.
Ela pode ocorrer de diferentes formas.
Algumas pessoas apresentam apenas pequenos escapes ocasionais de fezes líquidas ou muco.
Outras conseguem controlar as fezes, mas não os gases. Também é comum sentir uma urgência tão intensa para evacuar que não há tempo suficiente para chegar ao banheiro.
Nos casos mais graves, pode ocorrer perda completa das fezes.
Embora seja mais frequente em idosos, a incontinência fecal não faz parte do envelhecimento normal e deve sempre ser investigada.
Quais são os sintomas?
Os sintomas variam bastante entre os pacientes.
Os mais comuns incluem:
- perda involuntária de fezes;
- escape de gases;
- urgência para evacuar;
- dificuldade para segurar as fezes até chegar ao banheiro;
- necessidade de usar absorventes ou fraldas;
- medo constante de sair de casa devido ao risco de acidentes.
Além do impacto físico, a doença costuma afetar a autoestima, os relacionamentos e a qualidade de vida.
Quais são as principais causas?
O controle da evacuação depende do funcionamento adequado dos músculos do esfíncter anal, dos nervos da pelve, da capacidade de armazenamento do reto e da consistência das fezes.
Alterações em qualquer um desses componentes podem causar incontinência fecal.
Lesões relacionadas ao parto
Essa é uma das causas mais frequentes em mulheres.
Partos vaginais difíceis, principalmente aqueles com uso de fórceps, lacerações importantes ou bebês muito grandes, podem provocar lesões dos músculos do esfíncter anal ou dos nervos responsáveis pelo controle da continência.
Em alguns casos, os sintomas aparecem apenas muitos anos depois.
Cirurgias anorretais
Algumas cirurgias realizadas na região anal podem comprometer parcial ou totalmente os músculos do esfíncter.
Isso pode ocorrer após procedimentos para fístulas anais complexas ou, mais raramente, após outras cirurgias anorretais.
Por esse motivo, sempre buscamos tratamentos que preservem ao máximo a função esfincteriana.
Prolapso retal e prolapso interno
Alguns pacientes apresentam incontinência fecal devido a alterações anatômicas do reto e do assoalho pélvico.
O prolapso retal completo, quando todo o reto exterioriza através do ânus, frequentemente está associado à perda da continência.
Já o prolapso interno (intussuscepção retal) ocorre quando o reto se dobra sobre si mesmo durante a evacuação, sem exteriorizar pelo ânus. Essa condição pode causar dificuldade para evacuar, sensação de evacuação incompleta e episódios de escape de fezes.
Nesses casos, o tratamento depende da gravidade dos sintomas e pode incluir fisioterapia ou cirurgia.
Doenças neurológicas
Diversas doenças podem comprometer os nervos responsáveis pelo controle da evacuação, como:
- acidente vascular cerebral (AVC);
- doença de Parkinson;
- esclerose múltipla;
- diabetes mellitus;
- traumas e lesões da medula espinhal.
Diarreia crônica
Mesmo pacientes com músculos do esfíncter preservados podem apresentar dificuldade para controlar fezes muito líquidas.
Doenças inflamatórias intestinais, síndrome do intestino irritável, infecções intestinais e outras causas de diarreia podem contribuir para episódios de incontinência.
Envelhecimento
Com o passar dos anos pode ocorrer redução da força muscular e alterações na sensibilidade do reto e do canal anal.
No entanto, envelhecer não significa que perder fezes seja normal.
Sempre vale a pena investigar e tratar.
Como é feito o diagnóstico?
O primeiro passo é uma consulta detalhada.
Durante a avaliação, o cirurgião procura entender quando os sintomas começaram, a frequência dos episódios, a consistência das fezes, antecedentes obstétricos, cirurgias prévias, doenças neurológicas e outras condições que possam contribuir para a perda da continência.
O exame físico geralmente inclui a avaliação da região anal e da força dos músculos do esfíncter.
Quando necessário, podem ser solicitados exames como ultrassom endoanal, manometria anorretal, ressonância magnética da pelve e colonoscopia.
Esses exames ajudam a identificar a causa da incontinência e orientar o tratamento mais adequado.
Quais são os tratamentos disponíveis?
Na maioria dos casos, o tratamento é realizado de forma progressiva, começando pelas medidas menos invasivas.
Mudanças na alimentação
O primeiro objetivo é melhorar a consistência das fezes.
Dependendo do caso, podem ser recomendados aumento da ingestão de fibras, tratamento da diarreia, ajustes na alimentação e melhora da hidratação.
Pequenas mudanças podem proporcionar melhora importante dos sintomas.
Medicamentos
Alguns pacientes se beneficiam do uso de medicamentos que reduzem a frequência das evacuações ou aumentam a consistência das fezes, principalmente quando existe diarreia associada.
Fisioterapia do assoalho pélvico
A fisioterapia especializada fortalece a musculatura do assoalho pélvico e melhora a coordenação dos músculos responsáveis pela continência.
Em muitos pacientes, representa uma excelente opção de tratamento, especialmente nos casos leves e moderados.
Neuromodulação sacral (InterStim®)
Quando as medidas conservadoras não proporcionam melhora suficiente, alguns pacientes podem ser candidatos à neuromodulação sacral, também conhecida pelo nome comercial InterStim®.
Nesse tratamento, um pequeno neuroestimulador é implantado próximo aos nervos sacrais, responsáveis pelo controle da evacuação.
O objetivo é modular o funcionamento desses nervos e restaurar o controle intestinal.
Trata-se de um procedimento minimamente invasivo que pode proporcionar melhora significativa da qualidade de vida em pacientes cuidadosamente selecionados.
Um benefício adicional é que muitos pacientes apresentam incontinência fecal e urinária ao mesmo tempo. Nesses casos, a neuromodulação sacral pode proporcionar melhora de ambos os problemas com um único tratamento, desde que haja indicação adequada.
Explico como funciona o neuroestimulador em mais detalhes em outro artigo do blog.

Cirurgia
Em alguns pacientes, a cirurgia pode representar a melhor opção de tratamento.
Quando existe uma lesão importante do esfíncter anal, especialmente após trauma ou parto, pode ser indicada uma esfincteroplastia, procedimento que consiste na reconstrução dos músculos responsáveis pela continência.
Em outras situações, como prolapso retal, fístulas complexas ou outras alterações anatômicas, o tratamento cirúrgico é direcionado para corrigir a causa da incontinência.
A escolha da cirurgia depende da causa da incontinência, da gravidade dos sintomas e dos resultados dos exames realizados durante a investigação.

A incontinência fecal tem cura?
Muitas vezes, sim.
Em muitos pacientes é possível corrigir completamente o problema. Em outros, o objetivo do tratamento é reduzir ou eliminar os episódios de perda e recuperar a qualidade de vida.
Felizmente, a maioria das pessoas apresenta melhora significativa quando recebe o tratamento adequado.
Por isso, quanto mais cedo a investigação for iniciada, maiores são as chances de sucesso.
Quando procurar um especialista?
Você deve procurar avaliação médica sempre que apresentar:
- perda involuntária de fezes;
- dificuldade para controlar gases associada a escapes;
- urgência frequente para evacuar;
- necessidade de usar absorventes devido aos escapes;
- limitação das atividades sociais por medo de acidentes.
Muitas pessoas convivem com esses sintomas por anos devido ao constrangimento.
No entanto, quanto mais precoce for a avaliação, maiores são as possibilidades de tratamento.
Conclusão
A incontinência fecal é uma condição comum, mas muitas vezes escondida por vergonha ou constrangimento.
Perder fezes não é normal e não deve ser encarado como uma consequência inevitável da idade ou do parto.
Hoje existem diversas opções de tratamento capazes de melhorar significativamente os sintomas e devolver qualidade de vida aos pacientes.
Uma avaliação especializada é o primeiro passo para identificar a causa da incontinência e definir a estratégia mais adequada para cada caso.
Perguntas frequentes
Não. Embora seja mais frequente em idosos, a incontinência fecal não é considerada normal e deve ser investigada.
Sim. Lesões dos músculos ou dos nervos durante o parto podem causar sintomas, que às vezes aparecem apenas muitos anos depois.
Sim. Muitos pacientes melhoram com mudanças na alimentação, medicamentos e fisioterapia do assoalho pélvico.
É um tratamento minimamente invasivo que utiliza estimulação dos nervos sacrais para melhorar o controle da evacuação em pacientes selecionados. Em alguns pacientes, também pode melhorar a incontinência urinária.
Na grande maioria dos casos, não. Existem diversas opções de tratamento antes que uma ostomia seja considerada, e a necessidade de uma colostomia é rara.
Sim. Algumas doenças podem afetar simultaneamente os mecanismos responsáveis pelo controle da urina e das fezes. Nesses casos, uma avaliação especializada é importante, pois alguns tratamentos, como a neuromodulação sacral (InterStim®), podem beneficiar ambas as condições.



